



| Rio de Janeiro - Os Jogos Pan-Americanos, que estão sendo realizados há uma semana no Rio, vão deixar mais do que lembranças esportivas para moradores de 30 comunidades de baixa renda que sofrem com a violência na cidade. Por iniciativa da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), espaços urbanos identificados pelos próprios líderes comunitários como focos de criminalidade serão revitalizados com investimentos de R$ 1,5 milhão, liberados pelo Ministério da Justiça, por intermédio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Um dos locais atualmente considerados perigosos, que será transformado em espaço de convívio para a comunidade, fica no Borel, zona norte da cidade, onde vivem 10 mil pessoas. O espaço escolhido pelos moradores para receber modificações foi uma quadra de esportes construída há cinco anos no alto do morro, mas que hoje praticamente não é utilizada. O piso da quadra tem buracos no chão, balanços do parquinho e equipamentos de ginástica estão quebrados. Também não há iluminação e bancos foram cobertos por terra que desceu das encostas vizinhas. De acordo com a líder comunitária Maria Dalva, mais do que isso, o ponto é porta de entrada de ações policiais na comunidade e serve de passagem para supostos traficantes que andam armados e acabam coagindo os jovens, que ficam no local prestando pequenos serviços, como, por exemplo, a compra de lanches nas redondezas. “É o único espaço de lazer que a gente tem na comunidade, e hoje se tornou inseguro porque está abandonado. As pessoas não estão podendo usar, porque, quando a polícia sobe, já chega atirando por aqui. Os jovens ficam sentados aqui, e vendo o quê? A polícia ou coisa que não deve”, disse Dalva. Daniela Cardoso, de 15 anos, que mora perto do local, conta que não tem acesso à quadra. “Minha mãe não deixa eu vir, porque é muito perigoso. E, também, como é que eu vou me divertir aqui? Não é o local apropriado”. Na reforma da quadra, deverão ser gastos R$ 123 mil. As obras previstas são: troca do piso, instalação de lixeiras e bancos, iluminação, troca de equipamentos quebrados e construção de churrasqueiras, além de drenagem na encosta do morro. Segundo Dalva, na área remodelada serão realizados eventos sociais e esportivos. Ela espera que o novo espaço reduza a violência na comunidade: “O que queremos é um espaço urbano seguro, que as pessoas possam ter lazer, cultura e esporte e o direito de ir e vir. Os jovens precisam muito disso. Eles não têm nada para fazer. Queremos mudar isso, transformar esse espaço de medo em um lugar de convivência”. Para Cristiano de Jesus, de 16 anos, que hoje está trabalhando como guia cívico do Pan, a nova quadra pode ajudar a conquistar o sonho de seguir carreira como jogador de futebol. “O futebol é meu tudo. E, com a quadra arrumada, vai ficar mais fácil. Eu vou lutar para chegar lá”. A arquiteta Cláudia Muniz, coordenadora do projeto Espaços Urbanos Seguros, ressaltou que as intervenções vão melhorar a qualidade de vida dos moradores, favorecer a auto-estima, minimizar a criminalidade e promover a inserção social. Ela disse que, quando não existe tem um espaço para festas, de encontro, as pessoas acabam ficando "ao léu". "Os jovens ficam ser fazer nada. Com tudo aqui bem apresentado, eles poderão ter encontros sociais, atividades esportivas, e isso vai minimizar os problemas da comunidade. Os adolescentes não vão ficar à mercê de uma possível criminalidade”, afirmou. Cláudia destacou que as intervenções programadas para as 30 comunidades do entorno do Pan são diferentes de outras obras já realizadas em áreas de baixa renda e com problemas de criminalidade, porque envolvem diretamente os moradores tanto na elaboração dos projetos quanto na manutenção dos novos espaços. ”Os líderes comunitários tiveram um curso de capacitação em gestão e desenho urbano para montar os projetos. Além disso, será formado um comitê da comunidade para gerenciar esses espaços, vão fazer mutirões, vão efetivamente tomar conta do espaço, porque eles são os donos do espaço” explicou. Mil jovens das comunidades também foram capacitados pelo Confederação Nacional da Indústria (CNI), na área da construção civil, e poderão atuar nas obras de revitalização que serão executadas pela prefeitura do Rio, a partir de agosto. Ao todo, as intervenções nas 30 comunidades localizadas no entorno do Pan vão beneficiar cerca de 200 mil pessoas. Segundo Cláudia, o Programa Espaços Urbanos Seguros foi inspirado em um projeto implantado em Bogotá, na Colômbia, em 2003, que obteve excelentes resultados na redução da criminalidade. Atualmente, a Senasp desenvolve no Rio oito projetos de segurança cidadã: Guias Cívicos, Brigada Socorrista, Polícia Comunitária, Atenção e Proteção às Crianças, Atenção e Proteção às Famílias, Mediação Pacífica de Conflitos, Olimpíada Carioca e Espaços Urbanos Seguros. |
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